Chá de Pitanga: Benefícios, Como Fazer com a Folha Certa e Cuidados (Fruta x Folha)
🌿 Resposta rápida O chá de pitanga usado na medicina popular é feito com a folha da pitangueira (Eugenia uniflora), não com a fruta. O uso mais reconhecido é como auxiliar no alívio da diarreia leve, sem infecção, indicação que aparece no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, ligado à Anvisa. Efeitos sobre pressão, glicose e inflamação foram vistos só em animais e em laboratório; ainda não há estudos em pessoas. O chá não é indicado para grávidas, lactantes, menores de 18 anos e pessoas com arritmia ou insuficiência cardíaca, e não substitui nenhum remédio.
Neste artigo você vai aprender
- Fruta ou folha: de onde vem o chá de pitanga?
- Pitanga vermelha, laranja e roxa: são plantas diferentes?
- O que é a pitangueira
- Principais compostos ativos
- Benefícios do chá de pitanga
- O que diz a ciência
- Como preparar o chá de pitanga
- Uso culinário da fruta
- Contraindicações e interações
- Perguntas frequentes
Introdução
Quase todo quintal brasileiro já teve ou tem um pé de pitanga. A frutinha vermelha, cheia de gominhos, é lembrança de infância para muita gente. Mas, quando o assunto é o chá de pitanga, aparecem duas confusões: muita gente acha que ele é feito com a fruta, e muita gente acha que a pitanga laranja e a roxa são plantas diferentes da vermelha.
Neste artigo, a gente esclarece as duas coisas, mostra o que a ciência já confirmou (e o que ainda não confirmou) e ensina a preparar o chá do jeito que o documento oficial orienta, com todos os cuidados.
Fruta ou folha: de onde vem o chá de pitanga?
O chá usado na medicina popular, e o que aparece no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, é feito com a folha da pitangueira. A monografia da espécie, organizada pelo Ministério da Saúde e pela Anvisa, registra que a folha é a parte de maior interesse medicinal: ela aparece em cerca de 72% dos estudos analisados.
A fruta é alimento. Ela é deliciosa e rica em pigmentos naturais, mas não é ela que entra no chá tradicional.
| Fruta (pitanga) | Folha (pitangueira) | |
|---|---|---|
| Para que se usa | Alimento: comer ao natural, sucos, doces | Chá (infusão) na medicina popular |
| O que tem de destaque | Carotenoides (como o licopeno) e, na roxa, antocianinas | Taninos, flavonoides e óleo essencial |
| Cheiro | Aroma intenso e adocicado | Cheiro forte e característico quando amassada |
| Aparece no Formulário da Anvisa? | Não | Sim, como auxiliar na diarreia leve |
| Vitamina C | Tem pouca; não é considerada boa fonte | Não é o destaque |
Como reconhecer a folha certa: a folha da pitangueira é pequena, oval, verde-escura e brilhante, e nasce em pares, uma de frente para a outra. As folhas novas são verde-amarronzadas. Amassada entre os dedos, ela solta um cheiro forte e característico.

⚠️ Não colha folhas na rua, em praças ou na beira de estradas. Existem outras árvores parecidas, com folhinhas brilhantes muito semelhantes. Além do risco de pegar a planta errada, folhas de rua podem estar sujas de poeira, fumaça ou veneno. Prefira um pé que você conhece, ou compre a folha seca com o nome científico Eugenia uniflora no rótulo.
Pitanga vermelha, laranja e roxa: são plantas diferentes?
Não. Todas são a mesma espécie, Eugenia uniflora. A Embrapa descreve que a cor da pitanga madura pode variar do laranja ao vermelho, ao vermelho-escuro e até quase ao preto, conforme a planta. A pitanga roxa, também chamada de pitanga-preta, é a mais rara.
Um estudo feito com pitangas cultivadas na Embrapa Clima Temperado (RS) comparou as três cores:
| Roxa | Vermelha | Laranja | |
|---|---|---|---|
| Compostos fenólicos | Maior teor (463 mg/100 g) | 210 mg/100 g | 179 mg/100 g |
| Antocianinas (pigmento roxo) | Maior teor (136 mg/100 g) | 69 mg/100 g | 25 mg/100 g |
| Pigmento de destaque | Antocianinas | Licopeno | Licopeno e mais betacaroteno e betacriptoxantina |
| Capacidade antioxidante (laboratório) | Mais alta | Menor | Menor |
As antocianinas da pitanga roxa são do mesmo tipo das da jabuticaba: a cianidina-3-glicosídeo e a delfinidina-3-glicosídeo aparecem nas duas frutas. Já o licopeno da pitanga vermelha é o mesmo pigmento que deixa o tomate vermelho.
Os pesquisadores também observaram que até o óleo perfumado da folha muda de composição conforme a cor da fruta da planta.
Isso não quer dizer que uma cor é “remédio” e a outra não. São diferenças de composição medidas em laboratório. As três frutas são ótimas para comer.

O que é a pitangueira
A pitangueira é um arbusto ou pequena árvore nativa do Brasil. O nome vem do tupi e significa “vermelho”. Ela ocorre naturalmente em boa parte do país, com maior presença da Bahia até o Rio Grande do Sul, nos biomas Mata Atlântica, Cerrado e Pampa. A tradição conta que os indígenas guaranis já usavam a planta como remédio há muitos séculos.
| Informação | Detalhe |
|---|---|
| Nome científico | Eugenia uniflora L. |
| Família | Myrtaceae (a mesma da goiabeira e da jabuticabeira) |
| Nomes populares | Pitanga, pitangueira, pitanga-vermelha, pitanga-do-mato, cereja-brasileira |
| Parte usada no chá | Folha |
| Origem | Brasil (nativa) e outros países da América do Sul |
| Compostos principais da folha | Taninos, flavonoides (como quercetina e miricitrina) e óleo essencial |

🌱 Dica do Momento Chá Na hora de secar as folhas em casa, prefira um lugar arejado e à sombra. Um estudo citado na monografia do Ministério da Saúde observou que folhas secas ao sol perderam a atividade antioxidante, enquanto as secas longe da luz a mantiveram.
Principais compostos ativos
- Taninos: são as substâncias que dão a sensação de “amarrar” a boca, como a banana verde ou o caju. Eles têm ação adstringente, ou seja, ajudam a “segurar” o intestino. A Farmacopeia Brasileira estabelece que a folha seca deve ter no mínimo 5% de taninos.
- Flavonoides: substâncias antioxidantes naturais. Na folha da pitangueira, os principais são a quercetina, a miricetina e a miricitrina.
- Óleo essencial: é ele que dá o cheiro forte quando a folha é amassada. Seus componentes principais (como o curzereno) variam bastante de planta para planta e de região para região.
Benefícios do chá de pitanga
🌿 Auxiliar na diarreia leve
É o uso mais reconhecido. O Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira indica o chá da folha como auxiliar no alívio da diarreia leve, que não seja causada por infecção. A indicação se apoia principalmente no uso tradicional e faz sentido por causa dos taninos. Em camundongos, o extrato da folha reduziu a velocidade do trânsito intestinal.
🫀 Pressão arterial (pesquisa em animais)
Na medicina popular, a folha é muito usada para a pressão alta. Em ratos, o extrato aquoso da folha reduziu a pressão arterial e teve efeito diurético. Não há estudos em pessoas. O chá não trata pressão alta.
🩸 Glicose no sangue (pesquisa em animais)
Uma revisão sistemática de 2022 reuniu os estudos sobre pitanga e glicemia. Todos os estudos incluídos foram feitos em ratos, e neles a pitanga reduziu a glicose e os triglicerídeos. Os próprios autores concluíram que não foram encontrados estudos em humanos e que eles ainda são necessários. O chá não trata diabetes.
🔥 Inflamação e dor (pesquisa em animais)
Extratos e o óleo essencial da folha reduziram inchaço e sinais de inflamação em testes com camundongos. Os resultados foram variados: em alguns testes não houve efeito. Não há estudos em pessoas.
🛡️ Ação antioxidante e antimicrobiana (laboratório)
Em tubo de ensaio, extratos e o óleo da folha mostraram ação antioxidante e contra algumas bactérias e fungos. São resultados de laboratório, que não mostram efeito ao tomar o chá.
🍒 A fruta como alimento
A fruta é saborosa, tem poucas calorias (cerca de 51 kcal em 100 g, segundo a Embrapa) e é rica em pigmentos naturais: licopeno nas vermelhas e laranjas e antocianinas nas roxas.
O que diz a ciência
A pitangueira é uma das plantas mais estudadas do seu gênero, mas quase toda a pesquisa foi feita em laboratório e em animais. A monografia do Ministério da Saúde e da Anvisa reuniu dezenas de testes em tubo de ensaio e cerca de 14 estudos em animais. A revisão de 2022 sobre glicemia não encontrou nenhum estudo em seres humanos.
Nível atual das evidências
| Uso | Nível | O que existe hoje |
|---|---|---|
| Diarreia leve não infecciosa | 🟡 Preliminar | Uso tradicional reconhecido no Formulário da Anvisa e estudo em animais. Sem estudos clínicos em pessoas. |
| Pressão alta | 🔴 Fraca | Só estudos em ratos. |
| Glicose / diabetes | 🔴 Fraca | Só estudos em ratos; revisão de 2022 confirma a falta de estudos em humanos. |
| Inflamação e dor | 🔴 Fraca | Só estudos em camundongos, com resultados variados. |
| Antioxidante / antimicrobiano | 🔴 Fraca | Só testes de laboratório. |
💡 Importante Um resultado em rato ou em tubo de ensaio não garante o mesmo efeito em pessoas, nem diz qual seria a dose segura. Por isso, o único uso indicado no documento oficial é o auxílio na diarreia leve, por pouco tempo.
Como preparar o chá de pitanga
Receita conforme o Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira:
Ingredientes
- 3 g de folha seca de pitangueira (cerca de 1 colher de sopa)
- 150 mL de água (1 xícara de chá)
Modo de preparo
- Ferva a água e desligue o fogo.
- Coloque as folhas, tampe e deixe em infusão por 15 a 20 minutos.
- Coe.
Quanto tomar
- Tome 30 mL (cerca de 2 colheres de sopa) após cada episódio de diarreia, no máximo 10 vezes ao dia.
- Não passe de 300 mL por dia (cerca de 2 xícaras).
- Prepare e tome no mesmo dia. Não guarde para o dia seguinte.
- Use só para problemas leves e por até 30 dias.
O Formulário não traz orientação de dose para outros usos, como pressão ou glicose. Não existe dose oficial para esses casos.
🌾 Você Sabia? No Paraguai, o pó das folhas de pitangueira é misturado à erva-mate para preparar o tereré, a bebida gelada tradicional da região.

Uso culinário da fruta
A pitanga madura tem sabor doce e levemente ácido e um aroma bem marcante. Ela pode ser comida ao natural ou usada em sucos, geleias, doces, sorvetes e licores. Como a fruta é delicada e estraga rápido depois de colhida, o ideal é consumir logo ou congelar a polpa.
Contraindicações e interações
Segundo o Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira:
- Não usar durante a gravidez, a amamentação e em menores de 18 anos, por falta de dados de segurança.
- Não usar em caso de alergia aos componentes da planta.
- Pode haver risco para pessoas com arritmia (batimentos fora do ritmo) ou insuficiência cardíaca.
- O chá pode causar prisão de ventre.
- Não passar de 300 mL por dia nem de 30 dias de uso.
- Se aparecer qualquer efeito indesejado, pare o uso e procure um médico.
Remédios para pressão ou diabetes: não há interação descrita no documento oficial. Mas, como a pitanga baixou a pressão e a glicose em animais, é prudente conversar com o médico antes de usar o chá junto com esses remédios.
Quando procurar atendimento: se a diarreia não melhorar em pouco tempo, ou se houver febre, sangue nas fezes ou fraqueza. A diarreia desidrata rápido, principalmente com o passar da idade.
⚠️ Importante Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um médico ou profissional de saúde. Não interrompa nem troque nenhum remédio por conta própria.
Perguntas frequentes
O chá de pitanga é feito com a fruta ou com a folha?
Com a folha. A fruta é alimento; o chá tradicional, que aparece no Formulário da Anvisa, é feito com a folha da pitangueira.
Chá de pitanga baixa a pressão?
Em ratos, o extrato da folha baixou a pressão, mas não há estudos em pessoas. O chá não substitui o remédio para pressão. Se você toma remédio, converse com o médico antes de usar.
Posso tomar chá de pitanga todo dia?
Não é indicado. O documento oficial orienta o uso só para diarreia leve, por pouco tempo (até 30 dias) e no máximo 300 mL por dia. Não há estudos de segurança para uso prolongado.
A pitanga roxa é mais forte que a vermelha?
A roxa tem mais antocianinas e mais capacidade antioxidante em laboratório, e a vermelha e a laranja têm mais carotenoides. Mas isso vale para a fruta como alimento. Nenhuma cor é “mais remédio” que a outra.
Posso usar folha fresca?
O Formulário traz a receita com folha seca (3 g para 150 mL). Não há uma medida oficial para a folha fresca.
Conclusão
A pitangueira é uma planta brasileira de verdade, com uma fruta deliciosa e uma folha usada há séculos na medicina popular. O ponto mais importante é este: o chá é feito com a folha, não com a fruta. O uso reconhecido oficialmente é como auxiliar na diarreia leve, em pouca quantidade e por pouco tempo. Os efeitos sobre pressão, glicose e inflamação são promissores, mas por enquanto foram vistos só em animais. Então aproveite a pitanga no prato e use o chá com cuidado, sempre conversando com o seu médico.
Fontes consultadas
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 2ª edição: Eugenia uniflora (Anvisa)
- Monografia da espécie Eugenia uniflora L. (pitangueira), Ministério da Saúde e Anvisa, 2015
- Bezerra JEF et al. Eugenia uniflora: pitanga. In: Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico, Embrapa
- Bagetti M et al. Physicochemical characterization and antioxidant capacity of pitanga fruits (Eugenia uniflora L.). Ciênc. Tecnol. Aliment., 2011
- Anthocyanins, pigment stability and antioxidant activity in jabuticaba. Rev. Bras. Fruticultura, 2011